Fernando Pessoa
Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: "Navegar é preciso; viver não é preciso." (*)

Retrato de Fernando Pessoa    

Quero para mim o espírito desta frase, transformada a forma para a casar com o que eu sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar.

Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha.

Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho na essência anímica do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade.

(texto do livro "Fernando Pessoa - Obra Poética")     



De Mensagem :


OS AVISOS...(TERCEIRO)

Ouça em Real Audio este poema musicado por André Luiz Oliveira, com Ney Matogrosso


Screvo meu livro à beira-magua
Meu coração não tem que ter
Tenho meus olhos quentes de água.
Só tu, Senhor, me dás viver.
Só te sentir e te pensar
Meus dias vacuos enche e doura.
Mas quando quererás voltar'?
Quando é o Rei? Quando é a Hora?
Quando virás a ser o Christo
De a quem morreu o falso Deus,
E a dispertar do mal que existo
A Nova Terra e os Novos Céus'?
Quando virás, ó Encoberto,
Sonho das eras portuguez,
Tornar-me mais que o sopro incerto
De um grande anceio que Deus fez?
Ah, quando quererás, voltando,
Fazer minha esperança amor?
Da névoa e da saudade quando?
Quando, meu Sonho e meu Senhor? CANTA:NEY MATOGROSSO

PRECE

Ouça em Real Audio este poema musicado por André Luiz Oliveira, com Gilberto Gil

Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade !
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O.mar universal e a saudade.
Mas a chamma, que a vida em nós creou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode ergue-la ainda.
Dá o sopro, a aragem, - ou desgraça ou ancia -
Com que a chamma do esforço se remoça,
E outra vez conquistemos a Distância -
Do mar ou outra, mas que seja nossa!

ULISSES

O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo -
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.

Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.

Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade.
E a fecundá-la decorre.
Embaixo, a vida, metade
De nada, morre.


  • O CONDE D. HENRIQUE

    Todo começo é involuntário.
    Deus é o agente.
    O herói a si assiste, vário
    E inconsciente.

    À espada em tuas mãos achada
    Teu olhar desce.
    “Que farei eu com esta espada?”

    Ergueste-a, e fez-se.


  • D. SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL

    Louco, sim, louco, porque quis grandeza
    Qual a Sorte a não dá.
    Não coube em mim minha certeza;
    Por isso onde o areal está
    Ficou o meu ser que houve, não o que há.

    Minha loucura, outros que me a tomem
    Com o que nela ia.
    Sem a loucura que é o homem
    Mais que a besta sadia,
    Cadáver adiado que procria?


  • O INFANTE D. HENRIQUE

    Em seu trono entre o brilho das esferas,
    Com seu manto de noite e solidão,
    Tem aos pés o mar novo e as mortas eras -
    O único imperador que tem, deveras,
    O globo mundo em sua mão.


  • PADRÃO

    Ouça em Real Audio este poema musicado por André Luiz Oliveira, com Caetano Veloso

    O esforço é grande e o homem é pequeno.
    Eu, Diogo Cão, navegador, deixei
    Este padrão ao pé do areal moreno
    E para diante naveguei.

    A alma é divina e a obra é imperfeita.
    Este padrão sinala ao vento e aos céus
    Que, da obra ousada, é minha a parte feita:
    O por-fazer é só com Deus.

    E ao imenso e possível oceano
    Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
    Que o mar com fim será grego ou romano:
    O mar sem fim é português.

    E a cruz ao alto diz que o que me há na alma
    E faz a febre em mim de navegar
    Só encontrará de Deus na eterna calma
    O porto sempre por achar.


  • EPITÁFIO DE BARTOLOMEU DIAS

    Jaz aqui, na pequena praia extrema,
    O Capitão do Fim. Dobrado o Assombro,
    O mar é o mesmo: já ninguém o tema!
    Atlas, mostra alto o mundo no seu ombro.


  • MAR PORTUGUÊS

    Ó mar salgado, quanto do teu sal
    São lágrimas de Portugal!
    Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
    Quantos filhos em vão rezaram!
    Quantas noivas ficaram por casar
    Para que fosses nosso, ó mar!

    Valeu a pena? Tudo vale a pena
    Se a alma não é pequena.
    Quem quere passar além do Bojador
    Tem que passar além da dor.
    Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
    Mas nele é que espelhou o céu.


  • NEVOEIRO

    Ouça em Real Audio este poema musicado por André Luiz Oliveira, com Gal Costa

    Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
    Define com perfil e ser
    Este fulgor baço da terra
    Que é Portugal a entristecer -
    Brilho sem luz e sem arder,
    Como o que o fogo-fátuo encerra.

    Ninguém sabe que coisa quere.
    Ninguém conhece que alma tem,
    Nem o que é mal nem o que é bem.
    (Que ânsia distante perto chora?)
    Tudo é incerto e derradeiro.
    Tudo é disperso, nada é inteiro.
    Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

    É a Hora!


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    Poemas extraídos da Obra Poética, Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1976.